<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-1729737762058996722</id><updated>2011-11-27T15:39:15.562-08:00</updated><category term='06 A Floresta Estática e o Bosque das Conchas'/><category term='02 Bartira: Queda e Ascensão - Parte I'/><category term='01 Bartira e os Nativos'/><category term='05 Adormecer no Amanhecer'/><category term='03 Bartira: Queda e Ascensão - Parte II'/><category term='04 Bartira: a Feiticeira'/><title type='text'>Contos Preliminares</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://contospreliminares.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1729737762058996722/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contospreliminares.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Pedro Hutsch Balboni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14455010515111242481</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>6</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1729737762058996722.post-6617074467676982878</id><published>2009-01-29T12:49:00.000-08:00</published><updated>2009-01-29T12:50:36.489-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='06 A Floresta Estática e o Bosque das Conchas'/><title type='text'>A Floresta Estática e o Bosque das Conchas</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Alguns livros falam da Floresta Estática. A maioria a trata como  um lugar real. Diversos autores descrevem e discorrem sobre o local, cada um a sua maneira e cada um do seu jeito. A verdade é que nem um deles jamais esteve lá, apenas imaginam como seria. Lembre-se: o que está descrito aqui é apenas mais uma versão que eu, como muitos autores, afirmo ser a verdadeira.&lt;br /&gt;        A Floresta Estática existe desde sempre, e sempre continuará assim. Tudo lá é estático, imóvel. O dia não troca de lugar com a noite. Os insetos não respiram nem se mexem. As árvores não crescem e seus galhos não dançam ao som do vento, pois o vento lá é calado e parado. As folhas das árvores não caem, nem mesmo as que já estão na metade do caminho, entre o galho e o chão. O gelo não derrete e o fogo não crepita. Até mesmo os sonhos são imóveis, estáticos. Ninguém nunca entrou ou saiu de lá, e por isso ninguém tem como saber algo do lugar.&lt;br /&gt;        Vizinho a essa floresta está o Bosque das Conchas. Desse lugar vale a pena falar, pois lá todas as flores florescem, morrem e voltam a florescer. O dia está sempre em competição com a noite, pois ambos querem estar lá, e isso faz com que, tanto o dia quanto a noite, sejam muito curtos. O gelo de um segundo para outro vira um oceano, enquanto no instante seguinte já foi evaporado pelo fogo que logo se extingue. As coisas acontecem muito rápido lá. O que está para cair, cai muito depressa, quase instantaneamente. O lugar é chamado de Bosque das Conchas pois numa determinada época do ano o solo fica cheio de conchas, conchas de todos os tipos, tamanhos e cores. Cores que só podem ser encontradas lá. Ninguém sabe o porquê das conchas, mas todos adoram e acham muito bonito. E, numa outra época do ano, as conchas somem e o Bosque volta a ser um bosque. Os sonhos vêm e vão muito depressa. Um espetáculo lindo de ser sentido, mas impossível de ser entendido. E lá, nesse lugar, nunca nada aconteceu.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1729737762058996722-6617074467676982878?l=contospreliminares.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contospreliminares.blogspot.com/feeds/6617074467676982878/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1729737762058996722&amp;postID=6617074467676982878' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1729737762058996722/posts/default/6617074467676982878'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1729737762058996722/posts/default/6617074467676982878'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contospreliminares.blogspot.com/2009/01/floresta-estatica-e-o-bosque-das.html' title='A Floresta Estática e o Bosque das Conchas'/><author><name>Pedro Hutsch Balboni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14455010515111242481</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1729737762058996722.post-4532792643795105716</id><published>2008-12-08T04:03:00.000-08:00</published><updated>2009-01-30T08:28:15.208-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='05 Adormecer no Amanhecer'/><title type='text'>Adormecer no Amanhecer</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;O sol ainda se espreguiça por entre as flores enquanto o homem anda. Ele veio de longe, vestindo seu manto branco e pés descalços. A calma em seu andar é inigualável e não se sabe ao certo se são os pés que pisam o solo ou se é o solo quem pisa os pés. A terra está fofa e úmida, se aquecendo do sereno noturno. Os passarinhos cantam bom dia para o visitante, e seu silêncio respeitoso responde em mesma intensidade. Nenhum ser menor é esmagado nessa caminhada, formiga, lagarta, nada, os pés sabem onde pisar sem que a harmonia do bosque seja abalada. Não há esforço para que isso ocorra, nasce naturalmente a relação entre a natureza e aquele homem.&lt;br /&gt;Seus cabelos já passaram do grisalho para o branco neve, assim como sua longa e lisa barba. Os olhos deveriam seguir esse mesmo caminho, esbranquiçando-se, mas não, continuam escuros como a noite. Nada naquele corpo antigo parece velho ou cansado, como se a existência de um ser jovem dentro dele fosse capaz de sustentar o peso da idade. Sim, ele era capaz, mas isso não importava, era chegada a hora.&lt;br /&gt;Pouco mais de vinte metros à frente do homem um fenômeno curioso começa a acontecer. Poderia ser descrito por muitos céticos como uma anomalia óptica, mas era muito mais do que isso. O tronco da árvore parecia engordar aos poucos, e em pouco tempo se percebia não ser isso, e sim que um corpo começava a brotar daquele tronco, um tronco saindo do outro, como se uma reação de fusão estivesse sendo desfeita. Um corpo que, ao mesmo tempo, continha e era contido pela árvore.&lt;br /&gt;Era uma mulher. Não exatamente uma mulher, mas sim uma ninfa. Uma ninfa do bosque. Uma criatura feita de natureza, ou a natureza formando aquela criatura, não há ainda um consenso sobre isso. As ninfas são criaturas curiosas, pois ao mesmo tempo em que estão na floresta toda, elas também têm uma existência singular como um humano, um indivíduo. Elas conseguem ser tanto o todo quanto o uno. Elas são as duas coisas em uma só, mas apenas uma de cada vez. Esta ninfa está agora em sua existência individual, e seu nome é Flora. Algumas pessoas pensam que ela é a própria natureza, a ninfa das ninfas, mas as demais ninfas não gostam disso e por vezes até castigam os porta-voz dessas barbaridades. As ninfas são geniosas e não levam desaforo para casa. Gostam de ser notadas e bem tratadas. Se dão bem entre si, mas assim que aparece um alguém interessante no meio, elas competem para tentar chamar mais a sua atenção. São, acima de tudo, femininas.&lt;br /&gt;Os dois seres estão frente a frente, a pouco menos de dois metros de distância. Olhos nos olhos, a sensação é a de reencontro.&lt;br /&gt;- Flora, você continua linda como quando a primeira manhã que te vi.&lt;br /&gt;- Você envelheceu. Os cabelos e a barba cresceram e mudaram de cor. As rugas surgiram. Mas há um algo em torno do seu ser que o torna ainda mais belo do que já foi em sua juventude. Para um mortal, você não está nada mal.&lt;br /&gt;Um sorriso se abre nos lábios do homem, entendendo e aceitando o elogio, e é correspondido por um sorriso mais tímido e recatado dela. Os dois se abraçam. Os corpos se acomodam um no outro com a mesma perfeição que acontecia há tempos atrás. O morno se mescla com o refrescante numa temperatura ideal. O ar sereno do homem faz a ninfa perceber e começar a chorar. Ela perderia o que sempre quis e sempre foi seu, mas nunca pôde ter.&lt;br /&gt;- Você veio se despedir?&lt;br /&gt;Os dois voltam a se olhar nos olhos, e as palavras vêem atrasadas para dizer o que já havia sido dito.&lt;br /&gt;- Sim. Sim, eu vim me despedir.&lt;br /&gt;E os dois corpos se aproximam num abraço novamente.&lt;br /&gt;- Nós nem tivemos chance de ter uma vida...o tempo foi cruel demais conosco, deixando a imortalidade toda para mim e as obrigações todas para você.&lt;br /&gt;- sim, mas fizemos o que tínhamos que fazer, e da melhor maneira possível – a voz forte dele era de certa forma reconfortante.&lt;br /&gt;- Ainda assim, não foi o bastante. Eu lhe disse que você deveria partir comigo e que devíamos viver nosso amor juntos, mesmo que de forma inconseqüente. Mas você sempre se importou mais com os outros do que consigo, e agora o tempo vai levá-lo de mim.&lt;br /&gt;- Sim, e enquanto houvesse trabalho para ser feito, eu o faria. Agora o meu trabalho final é partir, e devo cumpri-lo para validar tudo o que fiz antes.&lt;br /&gt;A ninfa o solta, dá um passo para trás e abraça a si mesma olhando para o chão.&lt;br /&gt;- Queria que pudesse ser diferente. E queria poder não entender.&lt;br /&gt;- Mas não podemos fugir do que precisou ser.&lt;br /&gt;- Eu sei. Será que em algum dia vai chegar também a minha hora de deixar esse plano?&lt;br /&gt;- Se este dia chegar, pode ter certeza que eu venho buscá-la pessoalmente, e nós teremos o tempo que nos foi tirado.&lt;br /&gt;Os dois se abraçam num ímpeto de sinceridade, forte, e não se largam. Era apenas um momento aquele, mas que já havia se imortalizado. Até o tempo respeitou esse intervalo e ficou em pausa silenciosa. Dentro da mente de cada um deles, que agora parecia se fundir em uma só, viveram todos os momentos que o mundo tridimensional lhes tinha tirado. Corriam de mãos dadas pelo bosque, pela neve, pelas montanhas. Caíam abraçados e se amavam. Cantavam melodias em volta da fogueira e falavam de coisas engraçadas. A vida que não tiveram.&lt;br /&gt;O abraço se afrouxa um pouco e eles estão de volta à realidade. O relógio volta a correr sem saber onde quer chegar. Somente os súditos dessa engrenagem sabem onde leva a estrada.&lt;br /&gt;- Me abrace Flora, me envolva junto ao seu peito, me sugue por suas entranhas e me faça escorrer para junto do coração quente deste planeta. Me conduza como a uma seiva, me leve de volta para o lugar de onde vim, seja a gravidade que já me permitiu conhecer a subida mas que tem a sabedoria de me devolver para o chão. Aprendi e ensinei muito durante minha viagem, é hora de dar chance para os espaços vazios, pois é do vazio que nascem as coisas novas.&lt;br /&gt;A ninfa, com compreensão muito maior por ser o que é, entende na íntegra, mesmo sabendo que nunca poderia compreender como se compreende as outras coisas compreensíveis. O abraço se intensifica e ela começa a escorrer para o meio da terra, num estágio intermediário, ela é agora o planeta que abraça aquele homem, mas sem abandonar seus sentimentos individuais que tornam o momento muito mais especial. Ele está agora de joelhos abraçando Flora e começa a se virar, se ajeitar para deitar confortavelmente em seu leito. Como quem se lembra de algo importante, ela lhe sussurra com sua voz doce:&lt;br /&gt;- E as pessoas, o que vão pensar? Que você sumiu, desapareceu? Embora seja a coisa que eu mais quero do mundo, você não pode passar seus últimos suspiros somente comigo, não pode abandonar seu povo sem dizer adeus após uma vida de luta e devoção, uma vida doada para ajudá-los. Deve-lhes, ainda que pareça muito, um parecer final, uma despedida como a que eles querem, que possam entender.&lt;br /&gt;- Calma, não me descuidei desse detalhe final e fundamental. Estou aqui e estou lá, ao mesmo tempo, para que todos possam me ver. Discurso, falo de coisas como o tempo, que leva as pessoas mas não leva as idéias que moram dentro delas. Falo que a memória é uma forma de imortalidade assim como todos nossos feitos. Falo que nada foi em vão, e é nessa hora que...&lt;br /&gt;Com o corpo já deitado e envolto pelas forças da natureza, uma nuvem branca se desprende do corpo do homem e sobe para o céu, se misturando com as nuvens. Na Cidade dos Magos, o mesmo fenômeno é presenciado em praça pública pela multidão convocada para um pronunciamento de emergência. O maior homem que eles haviam conhecido, um líder que se encarregou de dar uma despedida digna de um pai havia lhes deixado também inúmeros ensinamentos. E em meio a tantos, vinha a compreensão dentro daquelas pessoas de que aquela manhã era apenas o começo de mais um novo dia.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1729737762058996722-4532792643795105716?l=contospreliminares.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contospreliminares.blogspot.com/feeds/4532792643795105716/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1729737762058996722&amp;postID=4532792643795105716' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1729737762058996722/posts/default/4532792643795105716'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1729737762058996722/posts/default/4532792643795105716'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contospreliminares.blogspot.com/2008/12/adormecer-no-amanhecer.html' title='Adormecer no Amanhecer'/><author><name>Pedro Hutsch Balboni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14455010515111242481</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1729737762058996722.post-3810856985657857582</id><published>2008-09-11T12:58:00.000-07:00</published><updated>2008-12-08T04:18:30.777-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='04 Bartira: a Feiticeira'/><title type='text'>Bartira: a Feiticeira</title><content type='html'>&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:verdana;"&gt;O escuro. O escuro da solidão, o escuro nada solidário. O escuro absoluto, totalitário. O escuro que impera, o escuro que é muro. Escudo da luz. Escudo do amanhã. Escudo das incertezas e das inconsistências. O escuro dessa noite é assim. Esconde. Mas só quem se esconde no escuro sabe o quão frágil está.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:verdana;"&gt;A noite sempre é quente quando rodeada daquelas paredes de pedra. A cama macia parece querer engolir ao invés de abraçar. O suor dá a sensação de um estado febril, criando credibilidade para alucinações. Já houve outro nome para elas há tempos remotos: pesadelos. Hoje, atingiram um patamar mais elevado, aproximando a loucura do indivíduo são. Sanidade é algo muito particular.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:verdana;"&gt;Daquele escuro absoluto eles voltam a aparecer, como tem sido todas as noites. Os olhos redondos surgem despretensiosos num canto e se aproximam. Observam. Logo a coruja está visível. Sempre a coruja, como um cão de guarda, mas que vigia o dono e não a casa. Um carcereiro. Um cárcere mental. &lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:verdana;"&gt;Bartira abre os olhos e enxerga o céu infinito ao alto. As estrelas estão lá. As estrelas ainda estão lá! Ainda bem. São elas que tornam aquele peso suportável. É aquela réstia de luz que dá esperança na noite. São elas que fazem lembrar que da escuridão nasce o dia, num dourado mais belo que o ouro. O sereno consegue atingi-la, aliviando seu calor. Ela se senta na cama, passando as mãos sobre o rosto. Um copo de barro ao lado da cama contém água, e ela a toma. Água, sem feitiços, sem poções, apenas o mais puro dos líquidos, a base para fazer surgir desde o mais puro elixir até o mais grosseiro veneno.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:verdana;"&gt;O líquido passa por seu corpo trazendo uma paz necessária. Ela se levanta e vai à varanda, de onde pode observar sua floresta cobrindo toda a superfície visível. A brisa suave e o cantar dos seres notívagos acalentam a feiticeira. No entanto, em meio a eles, algo a perturba. Um cantar que não deveria existir no mundo real, que deveria ficar restrito aos seus pesadelos. Um cantar que há muito deveria estar extinto. O cantar de uma coruja. &lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:verdana;"&gt;Não era possível que aquela coruja fosse real! Seria esse o ápice de seus delírios? Ou será que ela apenas sonhou que acordou mas estava nesse momento se contorcendo na cama?! Não, nada disso. Era real, mais real do que ela gostaria que fosse. O cantar se aproximava. Mas como?! Ela havia exterminado todas as corujas, acabado uma a uma, liquidando-as! Não era possível que alguma coruja do continente tivesse se aventurado tão longe, indo para a ilha, cruzado a floresta e se aproximado da grande fortaleza de pedra. Toda coruja podia sentir que se aproximar de lá não era seguro. Mesmo assim o cantar chegou tão perto que o vulto ficou visível. Se aproximava, num bater de asas calmo. Veio em linha reta, com a mesma determinação que nos pesadelos. E os olhos tomaram forma. Sem apresentar nenhum traço de agressividade, a coruja pousou cordialmente no parapeito daquela varanda.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:verdana;"&gt;As duas criaturas se olharam olhos nos olhos, numa conexão simbiótica. Parecia que aquele encontro era mesmo inevitável, apesar de todas as medidas tomadas por precaução. A coruja sempre soubera dela, e ela sempre soube da coruja. O silêncio dizia isso e muito mais. Todo o resto do mundo externo havia sumido, e aquilo era só o que importava agora. Um ato pode ser entendido como desprezo às vezes, ou pode ser entendido de acordo com sua real intenção. Quando a coruja gira sua face para trás em cento e oitenta graus, Bartira escolhe a segunda opção e entende que deveria fazer o mesmo, olhar para trás.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:verdana;"&gt;E lá estava ele. O homem corpulento vestindo um crânio na cabeça. O vazio no olhar continua a incomodá-la. Ela disfarça uma inocente coragem, mas seu corpo treme, deixando vazar o segredo do medo. O segredo que todo animal consegue decifrar. Ela se dá conta que a informação vazou e se entrega ao desespero.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:verdana;"&gt;- Como?! Como você me encontrou?! – a voz era fraca e oscilava – Eu não fiz o que você mandou, como pôde voltar a me encontrar? Já faz tanto tempo...&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:verdana;"&gt;- Tempo. O tempo. A medida que vocês inventaram para descrever a realidade. A medida maior a qual todos estão submetidos. O tempo em que acreditamos, que nos aprisiona, que faz acreditar que o que aconteceu não tem mais volta. Nem eu conseguiria criar uma prisão tão perfeita, onde o prisioneiro deu sumiço em sua própria chave.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:verdana;"&gt;- Você não deveria estar aqui!&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:verdana;"&gt;- Posso perguntar quem deveria então? Você espera mesmo algum tipo de resgate? Não pode fugir de mim. Sim, eu sei que tentou, e sei como fez isso. Sempre soube, e você nunca me decepcionou.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:verdana;"&gt;Bartira gela por dentro. Aquele homem conseguia ter controle total sobre ela e sobre a situação, e isso mais do que a amedrontava, a seduzia.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:verdana;"&gt;- Eu fui bem claro com você, o preço de ter sua alma de volta eram cem novas almas aprisionadas. Você optou por não acatar minha oferta, na esperança de não ser encontrada, de trair nosso pacto. Esperança vã. Te encontro onde for, e se digo que em breve cumprirás seu destino, é porque isso irá acontecer.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:verdana;"&gt;- Não o fiz até agora, não teria motivo para fazê-lo.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:verdana;"&gt;- Você sabe que não é assim que funciona. – a mulher estremeceu por dentro. Ele estava certo, ela sabia. – Você passou todo esse tempo com sua alma aprisionada, e isso teve conseqüências. Seu corpo continua jovem, sem sinais de envelhecimento enquanto mortais morrem e nascem. Seu amigo, Narkbool, já faleceu, e apenas o filho de seu filho está vivo.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:verdana;"&gt;Era verdade. Quando Bartira voltou para ilha após ser capturada pelo homem da caveira, ela ficou amiga do chefe da tribo dos nativos, Narkbool, e juntos tinham o objetivo de defender a floresta do povo da cidade. Uma amizade interessante e levada a sério, que resultou em um afastamento quase absoluto entre os homens da cidade e os da floresta. Seu amigo morreu, o filho tomou seu lugar e as relações continuaram, mas sem a amizade. Quando o filho do filho assumiu, também tendo o mesmo nome do avô e do pai, a relação ficou muito distante, e Bartira passou os dias mais solitários de sua existência. O perigo já estava afastado da floresta, e talvez ele fosse o único elemento capaz de alimentar novamente uma relação mais próxima. A mentalidade daquele líder atual era diferente, e ele parecia querer coisas novas, criar modos de otimizar a produção de alimentos, que começava a surgir em detrimento ao método da coleta, onde procurar por frutos era uma diversão, bem como a caça. Bartira via cada vez mais a cidade nascendo na floresta e isso a perturbava. Como podiam eles ignorar assim as tradições, matando-a? Será que haviam se esquecido em que consistia sua luta há não muito tempo atrás? O tempo.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:verdana;"&gt;- Sem sua alma, você pôde viver tempo necessário para estar com a força no seu auge, no momento necessário. O momento é agora, propício para mudanças. E a mudança é de quem faz.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:verdana;"&gt;- Então desde o começo você sabia o que eu faria?&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:verdana;"&gt;- Claro. Os pensamentos de alguém amedrontado não são lúcidos, e ficam mais previsíveis. Além disso, não te deixei muitas escolhas. Agora durma, e amanhã o processo irá começar.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:verdana;"&gt;Como se sob efeito de hipnose, Bartira vai para cama e deita. O homem senta em uma cadeira ao seu lado, e os olhos dela se fecham antes mesmo dele se ajeitar. Ela dorme profundo e gostoso, como há séculos não fazia.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:verdana;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:verdana;"&gt;A claridade da manhã começa a incidir nos olhos de Bartira, clareando seus sonhos para longe, mas sem afastar a sensação gostosa. Ela se espreguiça como quem ainda dorme, esticando seu corpo pela cama macia. Era tão confortável, como ela nunca percebeu antes? Um bocejo espanta a preguiça para longe e ela resolve levantar e contemplar o dia, sempre tão belo.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:verdana;"&gt;Abre os olhos, e seu coração dispara num susto forte, acompanhado de um grito entalado, que não se transformou em som. Ela havia se esquecido da noite anterior, como se fosse um sonho leviano! Mas ao lado de sua cama, sentado com postura ereta e os braços sobre as pernas, estava aquele homem medonho que havia apagado sua existência! Ela pega um punhal de prata que estava ao lado e avança violentamente para cima dele, que parecia estar dormindo.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:verdana;"&gt;Nunca era possível saber se ele estava com os olhos fechados ou abertos, mas parece que estavam abertos. Ou se não estavam, não faz diferença, ele bloqueou o ataque da feiticeira agilmente, ficou de pé, e, segurando seu braço, suspendeu-a do chão.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:verdana;"&gt;- Bom dia minha rainha.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:verdana;"&gt;- C-co-como?!&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:verdana;"&gt;- Hoje nós começamos. – ele a coloca no chão e vai para a varanda. Ela o segue. Antes de te devolver à ilha disse que você voltava para reinar, está lembrada?&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:verdana;"&gt;- Sim.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:verdana;"&gt;- Chegou o dia. Iremos tomar a ilha e expulsar o povo da cidade daqui, os que conseguirem sobreviver. Iremos espalhar o terror e consagrar nosso reino. Pessoas aterrorizadas são fáceis de ser dominadas.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:verdana;"&gt;- É disso que se trata então?! Poder, domínio, como os habitantes da cidade? Como todo mundo?!&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:verdana;"&gt;- Você não precisa saber do que se trata por hora. Limite-se a me obedecer. Aquela centena de almas que você ainda não tomou, é hora de tomá-las. – e ele lhe estende a bola de cristal que continha sua alma. Mas como?! Aquela delicada jóia era sempre muito bem guardada junto de Bartira! Como ele a pegou?!&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:verdana;"&gt;Não importava agora. Parece que nada mais importava, ela já nem sabia se sua alma tinha algum valor, ou a dos outros. O que importava agora era o estratagema, o estratagema de guerra. Sem mais conflitos internos, era hora de exteriorizar tudo, de dar vazão a aquilo. Ela não sabia a razão. Só sabia que não precisava saber. Seguiu sem rodeios para a aldeia dos nativos, foi falar com Narkbool. Ele a atendeu com mau humor acentuado.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:verdana;"&gt;- O quê você quer Bartira?&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:verdana;"&gt;- Arme seus homens, entraremos em guerra contra o povo da cidade hoje.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:verdana;"&gt;- O quê?! Você está maluca mulher?! Não há motivo para uma guerra, para mortes! Não me esqueço de nosso passado, e é sabendo dele que sei que nossa luta já acabou há tempos! E não me esqueço do quanto você foi boa para nosso povo, o quão amiga era de meu avô, mas desde a morte dele a sua relação conosco acabou! Não haverá guerra se depender de mim.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:verdana;"&gt;- Que dependa de mim então – ela disse abrindo a mão, onde estava aquela esfera de cristal. Obedecendo naturalmente as vontades de Bartira, a alma de Narkbool saltou para fora dele e entrou naquela jóia. Ele era agora escravo de Bartira.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:verdana;"&gt;Enquanto o líder dos nativos ordenava as preparações para a guerra, Bartira foi para a cidade, sozinha, vestindo um manto preto desbotado e sujo. Andou pelas ruas, olhou para as construções e viu as pessoas, mas não sentiu nada. Não havia coisa alguma lá que merecesse piedade. Ela entra na faculdade onde outrora estudou sem ser barrada por ninguém, como se sua presença passasse despercebida, e segue para a sala da diretora, Lylian, será que ainda está viva? &lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:verdana;"&gt;Abre a porta, e lá estava ela. Sentada, com cara de espanto, largou os manuscritos que estava lendo, e até os livros da prateleira atrás da mulher tremeram um pouco. Recuperando a frieza habitual ela disse:&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:verdana;"&gt;- Bartira. Você não mudou nada desde aquele dia.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:verdana;"&gt;- Lylian. Você envelheceu, mas me admira que ainda esteja viva.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:verdana;"&gt;- E pretendo continuar o tanto que conseguir, por vias naturais ou metafísicas.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:verdana;"&gt;- Você sabia que este dia chegaria, não?&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:verdana;"&gt;- Eu tinha receio que sim. Você irá me poupar?&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:verdana;"&gt;- Sinto muito. Você está velha e fraca, não me serve de nada. Mas posso aliviar sua dor se você colaborar.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:verdana;"&gt;- Entendo agora. Você se tornou uma versão mais radical do que o que eu fui. Você, que tanto criticou meu fascínio pelo poder, vem agora atrás de mim em busca de mais.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:verdana;"&gt;- Os tempos são outros, e você não precisa saber meus motivos. Se não me engano, você tem o costume de “catalogar” as mulheres mais poderosas que já passaram por essa faculdade, estou certa? A fim de ter uma lista para casos bélicos, e ao mesmo tempo ter uma arma secreta contra elas.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:verdana;"&gt;Espantada pelo fato de Bartira saber de uma informação tão secreta que literalmente ninguém mais sabia, a velha responde:&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:verdana;"&gt;- Sim, é verdade, a lista existe. – e debaixo da mesa ela tira uma pasta grossa e velha, entregando à Bartira.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:verdana;"&gt;Ela olha os arquivos, folheando-os. Na ficha de cada mulher está um punhado de cabelo também, que contém a assinatura biológica da pessoa, o que chamaríamos hoje de códigos genéticos. Com isso, é possível realizar feitiços à distância, pois eles encontrariam logo o portador daquela assinatura inconfundível.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:verdana;"&gt;- Vejo que também estou na sua lista.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:verdana;"&gt;- Ah, sim. Quando você voltou, quando descobri que não estava morta, tive medo. Eu sabia que voltaria para me buscar, mas sempre acreditei que por vingança. Tentei todos feitiços que poderia tentar, dos mais banais aos mais rebuscados. Nenhum surtil efeito.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:verdana;"&gt;- Acredito que é porque eu carregava minha alma para fora de meu corpo. Dorme agora, não perderá nada em não ver os acontecimentos de hoje – disse passando a mão sobre a face da velha, selando seus olhos para sempre.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:verdana;"&gt;O próximo passo era simples e eficiente. Ela procurou dentre aquela lista toda quais eram de fato as mulheres mais poderosas, e quais estavam na idade adequada para lutar. E ao invés de liquidá-las, estendeu sua mão com a bola de cristal e sugou noventa e nove almas, uma a uma. A esfera foi se povoando e ficando mais escura a cada nova alma que entrava, até que na última alma das noventa e nove, uma alma verde pulou para fora, e rumou para dentro da feiticeira. Era a alma de Bartira! Acontece que durante o caminho aquela chama verde foi se apagando, e chegou no corpo da mulher como uma faísca pronta para apagar, e apagou.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:verdana;"&gt;Os olhos ganharam cor castanha novamente, mas só por alguns segundos. Os segundos mais pesados do mundo aqueles em que Bartira recuperou sua alma, onde pôde sentir o peso do que fez. E depois tudo apagou, tanto a dor quanto a felicidade. Que armadilha cruel aquela. A esperança nunca existiu de fato, e ela ter poupado cem pessoas com seu sacrifício por tanto tempo de nada adiantou. Nunca adiantaria. Era inevitável que a mulher vagasse mais cedo ou tarde sem alma pela superfície traiçoeira, e ela teria que viver tempo o bastante para conseguir ser morta por alguém, sem poder, no entanto, deixar de lutar. Estava feito e não havia mais como voltar atrás no tempo.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:verdana;"&gt;A cidade foi facilmente dominada, um ataque sincronizado dos nativos com as noventa e nove feiticeiras mais poderosas da cidade, tudo controlado mentalmente ao mesmo tempo em que Bartira centralizava em si a figura do terror e do poder. Alguns até tentaram lutar contra, mas a grande maioria tratou de fugir, muitos sem conseguir. Bartira deixou as águas do mar em calmaria, para que aquelas pessoas pudessem espalhar para o continente todo o terror do que haviam presenciado ali, a floresta calma que vira rebelde e as feiticeiras mais admiradas atacando indistintamente pessoas conhecidas ou não. Do alto, uma coruja observava tudo.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:verdana;"&gt;Bartira voltou à sua fortaleza, indiferente com seu feito, e na varanda estava o homem da caveira. Ele também não estava nada surpreso, como se tudo aquilo fosse inevitável.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:verdana;"&gt;- Prepare-se Bartira, nossos planos continuarão.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:verdana;"&gt;Mal sabiam eles que no continente duas forças muito maiores lutavam entre si.&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1729737762058996722-3810856985657857582?l=contospreliminares.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contospreliminares.blogspot.com/feeds/3810856985657857582/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1729737762058996722&amp;postID=3810856985657857582' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1729737762058996722/posts/default/3810856985657857582'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1729737762058996722/posts/default/3810856985657857582'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contospreliminares.blogspot.com/2008/09/bartira-feiticeira.html' title='Bartira: a Feiticeira'/><author><name>Pedro Hutsch Balboni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14455010515111242481</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1729737762058996722.post-956101658509480910</id><published>2008-09-03T05:11:00.000-07:00</published><updated>2008-12-08T04:17:56.735-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='03 Bartira: Queda e Ascensão - Parte II'/><title type='text'>Bartira: Queda e Ascensão - Parte II</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Tudo muito escuro e quente. A claustrofobia aparece do não se saber do estar e do ser. Tudo parece ter perdido o sentido, se é que algum dia já teve. A consciência vai e volta, incapaz de ser suportada pelos limites físicos tão judiados. As imagens voltam a aparecer lentamente, sempre igual: ela corre pela floresta escura com os galhos arranhando sua pele delicada, pisando em tocos que agridem seus pés ágeis e leves, ela continua a correr sem se importar, além de suas capacidades corpóreas. Mas não adianta, aqueles olhos grandes e redondos surgem novamente num canto escuro, e logo a coruja sai de sua toca, atacando-a. Ela cai no chão e perde novamente a consciência. Escuro. Um barulho do estalar de chamas puxa novas imagens. O calor é equivalente ao de sua fuga, mas agora ela estava parada, presa, incapaz de correr. O escuro começa a se alaranjar, quando um vulto se aproxima. É a coruja de novo, ela sabe que é! Se contorce, esperneia e até grita, mas nada espanta o vulto fantasmagórico. Está cada vez mais próximo e começa a tomar uma forma mais humana. Um fato a paralisa: das sombras já não aparecem mais aqueles olhos grandes e redondos de coruja, os olhos daquele vulto são a própria escuridão! E essa escuridão a possui novamente, como tem acontecido há não se sabe quanto tempo.&lt;br /&gt;A visão começa a voltar junto com um leve estado de consciência, mas a imagem não é nem um pouco nítida. Sombras projetadas na parede de uma caverna inspiram alucinações tão sórdidas quanto as que ela já vinha tendo. Seria esta a caverna de Platão? Não que esse nome já fosse conhecido nessa época, mas acorrentada, tudo que a mulher conseguia vivenciar além de seu próprio sofrimento eram as sombras projetadas a sua frente. A fogueira faz suas costas suarem, e estala violentamente como se aquela lenha conseguisse esconder dentro de si uma carga misteriosa de umidade. Os braços de Bartira realmente estavam acorrentados acima de sua cabeça, e suas pernas fracas de tanto correr em pesadelos faziam com que ela pendurasse seu peso como se fosse uma carga morta. O suor escorria pelo corpo nu. Eu estou nua?! Mal se deu conta disso, pôde ver também o quão magra estava, e aquele corpo esbelto e aconchegante que antes enfeitiçara naturalmente muitos homens parecia ser parte de um passado distante.&lt;br /&gt;Ouviu passos atrás de si, acompanhados de uma respiração profunda.&lt;br /&gt;- Eu estou morta?&lt;br /&gt;- Poderia estar. Se estivesse, seria muito diferente disto? E, caso esteja, está muito frustrada? Como imaginou que seria? Ou como imagina que vá ser? Será que, se fosse, você estaria tão indefesa? Ou tão bela?&lt;br /&gt;A voz masculina era grave e aterrorizante, mas ao mesmo tempo sedutora.&lt;br /&gt;- Você vai me machucar?&lt;br /&gt;- Mais do que já te fiz seria injusto fazer.&lt;br /&gt;Ela ia juntar forças para xingá-lo, mas quando ele entrou em seu campo de visão, viu que não era um homem, ou ao menos não parecia ser. Corpulento e musculoso como um guerreiro, sua face era oculta não por uma máscara, mas por uma caveira, um crânio usado como capacete que parecia se fundir a ele. Não era possível enxergar seus olhos, como se tivessem se perdido dentro do oco da caveira, e encará-lo era mergulhar de novo na escuridão. Parecia que seus pesadelos voltavam junto com aquela visão e começavam a se fundir com a realidade, sendo impossível separar um do outro.&lt;br /&gt;- Quem é você? – Gaguejou horrorizada.&lt;br /&gt;- É irrelevante, não importa. O que você precisa saber é que temos um pacto.&lt;br /&gt;- Pacto? Mas como se...&lt;br /&gt;- Não importa o como, e sim o porquê, e essa resposta você terá agora. Nesse intervalo em que você passou desacordada consegui a tua alma, e nisso você só acreditará se puder ver com os próprios olhos – Ele disse estendendo a mão que segurava uma bola de cristal, dentro da qual uma espécie de luz verde cintilante passeia sem rumo, linda, aprisionada do mesmo modo que ela. Eu te disse que fazer maior mal do que o que já lhe causei seria injusto.&lt;br /&gt;Bartira, que hipnotizada olha para sua própria centelha de vida, não sabe se fica maravilhada com a beleza que vê ou horrorizada com o que isso representa. Vazia, não sabe o que responder.&lt;br /&gt;- Se eu te salvei da morte ou se sou a própria, você não precisa saber. Meu nome talvez lhe seja revelado em algum momento propício, talvez não. O que importa é que tenho tua alma, e isso faz de você minha escrava – Ele fecha a mão, guardando a bola de cristal. Bartira consegue voltar um pouco à realidade.&lt;br /&gt;- E o quê você quer de mim?&lt;br /&gt;Por debaixo daquele crânio certamente houve um singelo sorriso.&lt;br /&gt;- Você voltará à sua vida, à sua ilha, mas não da mesma maneira submissa de antes. Você volta para reinar. Terá sua alma sob sua posse novamente; mas o preço de conseguir libertá-la deve ser pago por uma centena de novas almas aprisionadas no lugar dela. E ao fazer isso, não há mais volta; o seu ser ficará marcado, e eu poderei encontrá-la a qualquer momento.&lt;br /&gt;Tudo aquilo soava extremamente irreal, e seria muito melhor se fosse uma piada dessas que não têm a menor graça.&lt;br /&gt;- Deves erguer um castelo para ser sua fortaleza, e deves escravizar os nativos da ilha para que lutem por você, eles têm muito mais valor que qualquer outro habitante da cidade. Deves, no entanto e apenas temporariamente, deixar a cidade em paz: é hora de se tornar temida e nada mais.&lt;br /&gt;- Se tudo isso é uma tortura, pura e simples, chega, já não agüento mais! Podem acabar comigo! Vocês já venceram, podem parar!&lt;br /&gt;- Não há “vocês”. Só há você e eu aqui. Não há mais para onde fugir e não há nada que você possa oferecer que já não seja meu. É hora de você encarar a situação de frente. E agora você também terá um pouco de mim dentro de ti.&lt;br /&gt;Ele coloca a mão direita sobre o coração da mulher. Uma espécie de fluído-gasoso, uma mancha escura sem aspecto definido sai de suas mãos e penetra o corpo dela. Uma série de imagens invade sua cabeça, e junto com pesadelos é dado a ela conhecimento sobre o que chamamos hoje de magia negra. Que horror, era tudo verdade!&lt;br /&gt;Suas correntes se soltam fazendo-a cair de joelhos aos pés do homem. Suas forças, no entanto, haviam voltado. Ele estende a mão e lhe entrega a bela bola de cristal.&lt;br /&gt;- Vá, e cumpra sua tarefa Bartira. Quando chegar a hora, nos encontraremos novamente.&lt;br /&gt;Ao segurar a esfera, um clarão lhe ofusca, e ela está novamente em sua ilha, perto do começo da floresta. Poderia escolher qual dos dois lados seria seu rumo, poderia escolher seu destino! Antes de dar o primeiro passo em direção a cidade, algo a faz parar, ela olha para o cristal delicado em suas mãos e decide mudar de direção, indo para o coração da floresta: ela sabe que não tem outra escolha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não precisou vagar muito para ser capturada por um dos nativos e levada à aldeia. Lá, ela foi levada ao chefe da tribo, um homem de pele escura e rosto já enrugado, mas o corpo ainda recheado de músculos. Uma lança é seu cajado, e também símbolo de seu título de líder. Os dois conversam por horas, e apesar de Bartira saber pouco da língua falada por eles, é uma excelente oradora e consegue fazer um acordo. Eram amigos agora, e defenderiam a floresta contra aquele povo da cidade da melhor maneira possível. O que a mulher tentava fazer era enganar aquele homem amaldiçoado da caveira, se negando a abastecer a bola de cristal com outras almas em troca da sua, e assim fugir de seu destino sombrio. Ela guardara a esfera consigo com todo zelo, e o branco que invadiu os seus olhos permaneceria assim.&lt;br /&gt;O poder negro que lhe fora concedido era imenso, e isso a fascinava de certa maneira. Com as mãos pulsando, ela levantou um suave vôo vertical e começou a maestrar a construção telecinética de seu castelo, o símbolo de seu poder, no meio da densa floresta. A construção era realmente magnífica, mas carregada de um algo melancólico.&lt;br /&gt;Certo final de tarde, onde as nuvens, o sol e tudo o mais formavam o arranjo mais bonito da estação, Bartira foi até a varanda da grande torre de seu castelo, as palmas das mãos erguidas para cima, a respiração cada vez mais intensa, e começou a murmurar palavras que não devem ser transcritas aqui. As nuvens começaram a ficar escuras e carregadas, agrupando-se em um ponto bem no alto da cidade. Aos poucos foram formando uma imagem, e formavam a face de Bartira, num desenho lindo, mas ao mesmo tempo assustador. E das nuvens, com voz de trovão, saíram as seguintes palavras:&lt;br /&gt;- À cidade o que é da cidade: a podridão. À Bartira o que é de Bartira: a floresta. Não ousem se aproximar dela, pois se alguma árvore sussurrar sua presença, eu ouvirei, e não serei tão benevolente quanto hoje.&lt;br /&gt;Dito isto a nuvem começou a se desmanchar num chuvisco fraco e demorado, que durou cerca de três dias incansáveis. A água continha alguma coisa ácida nela, que feria os moradores da cidade e fazia com que eles se abrigassem dentro de suas casas. Quando a chuva passou, as pessoas enxergaram no sol dourado a esperança, se manifestaram e decidiram acabar com Bartira e seu castelo, marchando sobre a floresta. Fracassaram nessa tentativa sem nem ao menos chegar perto da construção de pedra, sendo atacados não só pelos nativos mas também pela própria floresta. Parecia que os oprimidos estavam dando o troco agora.&lt;br /&gt;Nenhuma outra grande guerra aconteceu, talvez um pequeno combate aqui ou ali, mas nada que contestasse a soberania daquela mata. Vez ou outra um jovem corajoso se aventurava para tentar falar com aquela mulher maligna, mas nunca alguém voltou para contar o que se passou. A economia da cidade foi piorando aos poucos, já que não se podia mais explorar a floresta atrás de suas riquezas. O povo da cidade entrou num estado de miséria que só não foi fatal pois formas auto-sustentáveis de sobrevivência foram sendo encontradas. E não só a Cidade da Ilha, como muitas outras cidades do continente conhecem e temem a lenda da mulher que voltou da morte com os segredos do além: Bartira, a feiticeira. E a mulher que agora era solitária e temida, já não sabia quando tinha acontecido sua queda, se fora em sua suposta morte, ou se fora na submissão a um propósito tão maligno, e nem onde estava sua ascensão, se era em se tornar uma poderosa feiticeira ou em ter poupado uma centena de almas: já não sabia mais, afinal, qual era a diferença entre a queda e a ascensão.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1729737762058996722-956101658509480910?l=contospreliminares.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contospreliminares.blogspot.com/feeds/956101658509480910/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1729737762058996722&amp;postID=956101658509480910' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1729737762058996722/posts/default/956101658509480910'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1729737762058996722/posts/default/956101658509480910'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contospreliminares.blogspot.com/2008/09/bartira-queda-e-ascenso-parte-ii.html' title='Bartira: Queda e Ascensão - Parte II'/><author><name>Pedro Hutsch Balboni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14455010515111242481</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1729737762058996722.post-2961511479441650970</id><published>2008-08-29T08:28:00.000-07:00</published><updated>2008-12-08T04:17:36.456-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='02 Bartira: Queda e Ascensão - Parte I'/><title type='text'>Bartira: Queda e Ascensão - Parte I</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Mais um dia comum na Cidade da Ilha. As pessoas se levantam junto com o sol e vão para suas funções. Alguns trabalham, outros estudam e alguns outros já não fazem nada. Difícil de culpar esses últimos, pois a prosperidade geral é tão grande que garante os excessos necessários para manter toda a população em uma vida cômoda e confortável. Cômoda e confortável.&lt;br /&gt;A base econômica dessa cidade, por se tratar de uma ilha, provém do mar. Grande parte de seus habitantes é constituída por pescadores, e estes, apesar de representar a tradição por executar o trabalho mais antigo daquele povo, pertencem a camada econômica mais baixa. Tudo o que é vital para a sobrevivência, mas pode ser encontrado em abundância, acaba sendo desvalorizado no mercado. Quem se deu bem mesmo, como costuma acontecer, foram os comerciantes. Empreendedores e aventureiros, aproveitaram-se do fato da cidade ter se isolado dos outros povos do continente para realizar transações incrivelmente vantajosas.&lt;br /&gt;A cidade se isolou devido a sua história: não se sabe ao certo há quanto tempo atrás, mas antes de sua fundação, lá no continente, houve uma cisão dentro de uma antiga faculdade de magia. O resultado disso foram seis jovens feiticeiras fugindo com uma boa parte do acervo especial daquela biblioteca. Elas rumaram a uma cidade portuária, onde encontraram um grupo de pescadores em greve que foram facilmente persuadidos a partir com elas à bordo, a fim de montar sua própria vila numa ilha distante, onde as coisas seriam diferentes e não haveriam mais aquelas explorações de patrão sobre empregado. Havia dentre aqueles pescadores um homem que se destacava, por ter sido um grande pirata quando jovem, mas de nome já esquecido. Os anos foram se passando, e os ensinamentos contidos nos livros furtados foram sendo esquecidos pelos habitantes da cidade do continente ao mesmo tempo em que outros conhecimentos eram esquecidos na Cidade da Ilha. A verdade é que com o passar do tempo, a Cidade da Ilha, com uma proposta tão diferente, foi se tornando bem parecida com as cidades do continente.&lt;br /&gt;O esquecimento foi um dos grandes culpados disso, mas também foi a chave do sucesso daquele lugar que teve tudo para dar errado, mas ao mesmo tempo teve tudo para dar mais certo. O esquecimento das origens, que nos leva a uma alienação perante o presente fez com que todos olhassem para o futuro, mas sem saber o porquê. É por isso que o que será contado aqui falará sobre as origens, para que não fiquemos perdidos em lugar desconhecido.&lt;br /&gt;As mulheres dessa cidade se destacam no quesito “importância” não só por sua função biológica, como já aconteceu em muitas outras nações, mas por serem as guardiãs dos segredos da magia. Sim, agora a magia era tratada como segredo, como mistério, e suas guardiãs eram as mulheres por causa daquelas seis antigas feiticeiras, embora ninguém mais soubesse disso. Alem das mulheres, dos pescadores e dos comerciantes, haviam outras pessoas executando variadas outras tarefas, como construtores, pintores, soldados, agricultores, piratas, exploradores da floresta, entre outros.&lt;br /&gt;Sim, havia também uma floresta. Ela era desmatada em ritmo acelerado, mas por cobrir grande parte da grande ilha, o impacto era pouco percebido. Suas riquezas naturais eram diária e incansavelmente convertidas em outros tipos de riqueza, e todos ficavam muito felizes com isso. Bom, não todos. Havia habitantes da floresta, os nativos daquela ilha, com quem os pescadores e as feiticeiras tiveram que brigar muito para se estabelecer (o que não foi tão difícil, já que inicialmente foram muito bem recebidos. Houve também uma questão de doença que dizimou os nativos, mas não se sabe ao certo, acredita-se ser por causa da falta de higiene deles). Era um povo de cultura muito inferior e não podiam ser considerados gente quando comparados as pessoas da civilização. Viviam emaranhados na floresta e pouca coisa se sabia deles; a única certeza era que quanto mais longe, melhor.&lt;br /&gt;Dentro de toda essa ilha, destaco uma pessoa, que vem acompanhada de um nome. Seu nome é Bartira, uma mulher comum, mas que irá se destacar ainda pelos fatos que estão por vir. Ela está finalizando seus estudos de magia, fazendo um equivalente ao que conhecemos hoje como “monografia”. Sua especialização está voltada para a botânica, um tema não muito abordado, que lhe garantirá não só uma boa nota, mas também um promissor futuro acadêmico. Isso é o que ela acredita. Mas como toda afirmação vem acompanhada de uma contestação, a curiosidade a leva à destinos inusitados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca esteve num lugar tão escuro. Além de escuro, é quente e abafado. Até a umidade passa a ser um agravante desse calor. A escada continua a rodopiar em direção ao centro da Terra, e a curiosidade a empurra para baixo como se fosse gravidade. Havia alguma coisa de ímã ali embaixo, que a puxava, mas isso não lhe tirava da cabeça o quão errado era entrar em uma das portas restritas da faculdade, e o risco dela ser expulsa era grande.&lt;br /&gt;Tarde demais para voltar atrás. Ela chega numa sala, onde todo o aperto e mormaço da descida somem e a pedra usada para construção torna a ficar fresca ao invés de morna. A escuridão persiste. Bartira usa uma magia simples que aprendera com sua falecida mãe para iluminar o local.&lt;br /&gt;O coração acelera e a respiração se torna mais intensa. Era maravilhoso! Ali, na sua frente, estava uma imensa biblioteca, cheia de livros com capas desconhecidas de que ela nunca tinha ouvido falar! Na sua frente estava um conhecimento restrito, algo que suas colegas dificilmente veriam, o segredo dos segredos! Ela poderia agora, certamente, garantir a melhor nota de toda a ilha!&lt;br /&gt;As horas passam enquanto ela lê os livros. A fome passa a ser algo secundário, sua sede por conhecimento é muito maior. A linguagem é pitoresca e a tipologia imensamente rebuscada, o que mostra que os livros são realmente antigos. Muitas das palavras já não mais existiam, mas Bartira era inteligente o suficiente para entendê-las dentro do contexto. Entender, entretanto, a levava cada vez mais à dúvida. Em vários livros ela encontrou que “a magia não é segredo ou mistério para ninguém, o grande aprendizado se dá com o quê aprendemos ao usar algum tipo de magia” e que “as riquezas podem existir em várias formas, mas tentar transformar uma em outra leva à um empobrecimento geral, pois toda equação acaba tendo, na prática, algum desperdício” dentre várias outras coisas que, de certo modo, iam contra tudo o que ela havia aprendido. Seria necessário tempo para analisar e repensar tudo.&lt;br /&gt;Mas essa é uma dádiva que ela não teve. Um barulho pequeno, vindo lá de cima a alertou: o barulho de alguém abrindo aquela mesma porta restrita. Os passos eram quase inaudíveis, mas vinham aos poucos descendo as escadas.&lt;br /&gt;Ela se apressou em recolher toda a sua bagunça e restituir os livros aos seus lugares, de maneira eficiente e silenciosa. Os passos já estavam quase chegando quando começaram a se apressar; a pessoa, seja lá quem fosse, havia se dado conta de que a sala subterrânea estava iluminada; Bartira se dera conta de que esqueceu do mais importante.&lt;br /&gt;Tratou de se esconder bem entre as prateleiras e já tinha um plano para sua fuga, simples e primário. Não havia provas de que ela tinha estado lá, a pessoa que estava para chegar poderia pensar que esqueceu algo iluminando a sala desde a última vez em que desceu naquele lugar; podia ser ainda uma colega realizando a mesma peripécia. Esse último pensamento não passava de um vago consolo: a pessoa chegou na biblioteca, era uma mulher, e isso podia se saber somente por causa de suas bufadas de raiva misturadas com desespero. A única coisa que poderia denunciar a localização da invasora agora eram suas estridentes batidas do coração.&lt;br /&gt;A mulher foi andando pela sala, explorando o local em busca de alguém, enquanto Bartira andava atrás da prateleira em sentido oposto; as duas desenhavam quase que um círculo, numa valsa perigosa. Chegou um momento em que a mulher estava no fundo da biblioteca e Bartira na porta que levava à escadaria. Não teve dúvidas, num assopro suave desmanchou a magia que iluminava tudo e começou a correr escadaria acima, rompendo facilmente a gravidade que antes a puxou para baixo. Seus passos eram rápidos, suaves e precisos: mesmo naquela escuridão ela não errou ou fez barulho algum. Ao abrir a porta de saída, a porta restrita, trombou com aquela mulher que estava agora mesmo ali embaixo.&lt;br /&gt;- Senhorita Bartira, eu nunca esperaria algo assim de você.&lt;br /&gt;Agora estava claro como aquela mulher se deslocara tão rápido e quem era ela: era Lylian, a diretora da faculdade, e também a mulher mais velha e poderosa de toda a ilha. Bartira, envergonhada do que fez e amedrontada com as conseqüências, ainda ofegante com a fuga frustrada, baixou a cabeça e se limitou a dizer:&lt;br /&gt;- Perdão, senhora Lylian.&lt;br /&gt;- Infelizmente, não há perdão para você mocinha.&lt;br /&gt;Como que num estalo, por alguma alteração ameaçadora na voz antes familiar daquela mulher, os instintos de sobrevivência de Bartira a fizeram se voltar para o lado e a começar a correr. Parecia uma coisa estúpida a se fazer, mas era noite e a faculdade estava vazia, era mais sensato fugir e voltar para o jubilamento durante o dia.&lt;br /&gt;Seus instintos logo se provaram sábios quando, durante a correria, um raio cinza atingiu de raspão seu ombro e abriu um buraco na parede. Ela não teve dúvida novamente e, mesmo estando no segundo andar do prédio, pulou pelo buraco, caindo do lado de fora da faculdade em cima de uns arbustos que amorteceram sua queda. Murmurou uma palavras que curaram seu ombro e lhe deram nova disposição para continuar a fugir. No entanto, sua agressora já estava a sua frente.&lt;br /&gt;- Senhora Lylian, o que deu em você?! Não precisa fazer isso!&lt;br /&gt;- Jovem tola, eu não queria, gosto de você, mas preciso. Você viu demais.&lt;br /&gt;Agora a razão entendeu que era tudo verdade, que era mais que um simples devaneio. Seu corpo tremia e ela sabia que não tinha chances num duelo de qualquer espécie.&lt;br /&gt;- Me perdoe! Me faça esquecer! Apague minha memória, leve tudo, mas me poupe!&lt;br /&gt;- Levar sua memória, infelizmente, não bastaria. O que você viu está agora impregnado em você, e exalará pelos poros. E caso você conseguisse esconder, ainda haveria o risco de alguém lhe arrancar esse segredo. Quando alguém se depara com uma verdade maior, não consegue escondê-la ao menos que tenha uma razão. Sinto muito.&lt;br /&gt;- Mas então me conte a razão e juro que me calarei!&lt;br /&gt;- Esse tipo de razão só faz sentido para quem ganha algo com ela, e garanto que você não ganhará nada além de punição hoje.&lt;br /&gt;A jovem recuava contra a parede, como um animal encurralado, mas sem forças para reagir. Uma coisa importante aconteceu nessa hora, num lugar atemporal, dentro da cabeça de Bartira. As peças começaram a se encaixar e o medo foi dando lugar à vontade de viver as verdades que ela descobriu.&lt;br /&gt;- Você confirma então que está tudo errado?! Que vivemos em uma metade incompleta, encoberta por mentiras? E tudo isso pra quê?! Qual é o propósito afinal de transformar toda essa baboseira em segredo?!&lt;br /&gt;- Tola! Ingênua! – agora sim Lylian assumiu um temperamento mais nervoso, muito mais coerente com as suas intenções. Não tem nada de errado! Temos o poder, temos tudo na mão! Nossas ancestrais fundaram nossa escola e nos deixaram apenas o que é realmente importante: poder! Todo o resto está errado, tudo o que não leva ao poder é desnecessário! Por isso precisamos manter isso tudo em segredo, para que esse poder não escape de nossas – nessa hora ela foi interrompida por um raio verde que a atingiu de surpresa.&lt;br /&gt;Esse raio partiu de Bartira! Que audácia! Ainda inconformada, Lylian se deu conta de que sua presa não estava mais ali, encurralada: fugira. Bartira corria mais rápido que o vento. A floresta! A floresta é minha salvação! Ela sabia que após ter revidado, não estaria segura em parte alguma.&lt;br /&gt;A escuridão da mata já a abraçava quando um novo feixe de raio cinza atingiu seu tornozelo direito. Será que vou conseguir despistá-la?! A velocidade de fuga diminui, e cada passo dói mais e mais. Ela pára, exausta e tonta no meio da floresta. Seu pulmão já não consegue processar a quantia necessária de oxigênio a tempo. Uma coruja a olha.&lt;br /&gt;Alguma coisa a atinge, e sua mente se esvai envolta em silêncio e escuridão.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1729737762058996722-2961511479441650970?l=contospreliminares.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contospreliminares.blogspot.com/feeds/2961511479441650970/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1729737762058996722&amp;postID=2961511479441650970' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1729737762058996722/posts/default/2961511479441650970'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1729737762058996722/posts/default/2961511479441650970'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contospreliminares.blogspot.com/2008/08/bartira-queda-e-ascenso-parte-i.html' title='Bartira: Queda e Ascensão - Parte I'/><author><name>Pedro Hutsch Balboni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14455010515111242481</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1729737762058996722.post-6046029068222209406</id><published>2008-08-21T06:58:00.000-07:00</published><updated>2008-12-08T04:17:14.962-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='01 Bartira e os Nativos'/><title type='text'>Bartira e os Nativos</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;As folhas arranham. O toque áspero agride a pele suave. Mas a expressão é serena. Passo após passo o homem se adentra na floresta. Seguindo a esquecida trilha, ele ruma para o coração negro de lá: o castelo de Bartira. Esse nome causa calafrios em qualquer um, mas não nele. Não mais. A lenda nos conta que a feiticeira foi expulsa dos calabouços que prendem os mortos e voltou à vida, com os segredos do além. Ela escravizou os nativos de uma região onde construiu seu castelo, um monumento de pedra que inspira medo em toda a redondeza. Quem a conhece não sobrevive para compartilhar a experiência. O povo das cidades a teme até mais que a morte, e sua floresta sombria permanece há muito intocada. Até agora. O barulho do mato pisado se assemelha a gemidos de algum felino, desacostumado a ser incomodado. O vento assobia como que num aviso. As arvores balançam se esbaldando da futura tragédia. Mas os passos são firmes e seguros.&lt;br /&gt;Após horas num ritmo acelerado a musculatura dá uma pequena brecha ao cansaço. A trilha se alarga, o sol não faz sombra. Metade do dia já havia passado. O homem chega a uma clareira onde um totem de pedra ocupa o lugar central. Ele sabe que para passar de lá deve se despir de suas angústias, de suas preocupações, de seus preconceitos, deve se despir literalmente, caso contrario os nativos não o poupariam. Após fazê-lo ele segue a trilha, agora com piso mais batido, ela é muito mais utilizada.&lt;br /&gt;Começa uma subida, o castelo fica no ponto mais alto da floresta. Ele se sente vigiado ao longo do percurso, e tem razão. Um barulho grave é ouvido, vindo de longe. Outro correspondente vindo do outro lado surge como resposta. Tambores pipocam de todos os cantos da floresta e saldam o viajante. É intimidador.&lt;br /&gt;Respiração ofegante, o homem encara os portões. Eles se abrem. O pátio central é escuro. Há uma fonte de água rubra no centro, e ao fundo uma sala escura, sem a parede frontal e cheia de pilares, parecida com as dos futuros templos egípcios. Uma voz poderosa sai de lá do fundo:&lt;br /&gt;- Deixarei os portões abertos para que possas fugir!&lt;br /&gt;Era Bartira, a feiticeira. Alta e magra, cabelos longos e encaracolados caindo sobre os ombros. Pele escura e olhos brancos. Totalmente brancos. Ela sai de dentro da sala em direção a luz do sol.&lt;br /&gt;- Fugir está fora de meus planos, feiticeira!&lt;br /&gt;- O que veio fazer em meus domínios, jovem tolo?&lt;br /&gt;- Vim exigir, em nome do meu povo, que sejas amistosa! Não queremos mais guerrear com você, não queremos mais que nossos filhos cresçam com medo de pronunciar vosso nome!&lt;br /&gt;Uma risada assustadora rasga o ar. Os tambores cessam.&lt;br /&gt;- E por que achas que eu aceitaria tal oferta?&lt;br /&gt;- Porque mentes! Tu não tens nem metade do poder que alegas ter! Não terias forças para salvar sua vida de mim agora mesmo!&lt;br /&gt;A feiticeira fita o rapaz. Seu olhar o penetra.&lt;br /&gt;- Meu jovem, dominei um povo inteiro com meu poder. Domino a floresta com reles pensamentos. São meras extensões de mim, apenas esperando minha palavra. Seria capaz de entregá-lo aos braços da morte sem mover um dedo.&lt;br /&gt;- Mentiras! É nisso que seu poder se baseia! Se fosses mesmo tão poderosa, capaz de tudo que alega, eu já não estaria mais vivo! Meu povo estaria dizimado! Mas não, o máximo que você é capaz de fazer...são ilusões!&lt;br /&gt;- E não vivemos todos numa grande ilusão? A doce ilusão de conseguir, a ilusão de que estamos no caminho certo, a ilusão de que escolhemos seguir esse caminho, a ilusão de que existe um caminho certo? Se considerarmos que tudo não passa de uma ilusão, recebida de forma distinta por cada um, eu digo que sim, o máximo que sou capaz de criar são ilusões! E em que bela ilusão você e seu povo vivem! Acreditam estar se aprimorando na qualidade do viver! Sem ver que ao derrubar arvores e apedrejar o solo estão apenas afastando a vida! Neutralizando o que se mexe! Tornando o ciclo estático! Se julgam tão superiores que estratificam a vida e se colocam como o centro de seu universo! Eliminam os pequenos incômodos, afastam as diferenças, buscam comodidade e previsibilidade! Buscam a segurança no padrão! Se julgam tão superiores que ousam impor algo à Bartira!&lt;br /&gt;Um silêncio de reflexão ocupa a resposta de nosso protagonista.&lt;br /&gt;- Eu não odeio o seu povo, e é por isso que ele vive. Acredito que um dia será possível que vocês enxerguem além das ilusões um horizonte reconfortante para essa existência desesperada. Mas até lá defenderei o que me toca! Vocês não irão cobrir minha floresta com sua cidade imunda!&lt;br /&gt;- Você fala como um sábio, mas age como um hipócrita. No coração de sua floresta está este castelo, uma construção de pedra, uma construção de homens.&lt;br /&gt;- Jovem contestador, não é através da negação que se reconhece a afirmação? Não é a quebra do padrão que nos faz perceber o mesmo? Uma árvore em sua cidade apenas realça o cinza que permeia tudo, mas um castelo na floresta...faz ver a floresta! E a floresta não é o simples verde...vários tons de verde, e outras inúmeras cores por baixo desse tapete. É vivendo aqui que consigo enxergar a beleza do lado de fora. E não foram os tambores que lhe mostraram a força do silêncio?&lt;br /&gt;Mais uma vez, reflexão. Tal grito é ensurdecedor. Olhar diretamente para o sol pode cegar.&lt;br /&gt;- Agora rapaz, volte para a sua gente e diga que Bartira não irá se render! Vá logo, pois o sol já está se pondo e a floresta fica selvagem na escuridão. A sua voz me mostrou o quanto seu povo é tímido e acomodado, ela não mais deve ser ouvida – Ela pensa, mas não pronuncia essas ultimas palavras.&lt;br /&gt;Ele se vê sem argumentos, e parte. O sol se põe, ocultando seu destino. Algumas lendas são verdadeiras. Algumas são apenas em parte. E algumas tem que estar sempre se fazendo cumprir para continuar a existir.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1729737762058996722-6046029068222209406?l=contospreliminares.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contospreliminares.blogspot.com/feeds/6046029068222209406/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1729737762058996722&amp;postID=6046029068222209406' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1729737762058996722/posts/default/6046029068222209406'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1729737762058996722/posts/default/6046029068222209406'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contospreliminares.blogspot.com/2008/08/bartira-e-os-nativos.html' title='Bartira e os Nativos'/><author><name>Pedro Hutsch Balboni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14455010515111242481</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry></feed>
